“A BOLA DE OURO NÃO LHE TROUXE GLÓRIA”


Homem de um só clube, Florian Albert destacou-se pela humildade. Entre recordações de chuteiras distribuídas e amizade com Eusébio, é um nome forte da história do Ferencváros

“Continuo zangado com o Lipcsei. 
Deixou-me sozinho no meio-campo, 
quando se transferiu para o FC Porto”

“A Adidas ofereceulhe um contrato exclusivo, mas o Estado negou-lhe. 
Pedia tamanhos diferentes para poder distribuir pelos colegas de equipa”

“Não houve dividendos para ele nem para mim dessa Bola de Ouro. 
Tentei ser modesto como ele”

Conversa com Florian Albert Jr, filho do Imperador, a maior lenda do clube magiar. Jogou toda a vida pelo Ferencváros e superou Bobby Charlton e Jimmy Johnstone como melhor jogador da Europa em 1967

12 Mar 2026 - O Jogo
PEDRO CADIMA

Só o FC Porto conheceu uma deslocação ao reduto do Ferencváros, um clube com prestígio marcante na Hungria – 36 títulos nacionais -, contando com um feito notável nos anais da história, de ter tido um Bola de Ouro em 1967 - por cima de Bobby Charlton - o mais glorioso filho do ‘Fradi’. Florian Albert é incontornável entre os deuses da bola magiares e tem no palmarés algo que não tocou a Puskas, Kokcis ou Czibor. O avançado, considerado um dos jogadores mais elegantes da história, artilheiro indomável e criador de perigo sufocante para qualquer rival, marcou 245 golos em 339 jogos, nunca duvidando do primeiro amor, o seu Ferencváros, virando “monstro” entre 1958 e 1974. Levou a sua classe ao Mundial de 1966, defrontou Portugal e esteve na vitória sobre o Brasil por 3-1.

Chamado de Imperador, Albert, falecido em 2011 com 70 anos, conquistou diversas homenagens, vendo o estádio rebatizado com o seu nome em 2007 – e tendo uma estátua junto - que não deixa cair os inúmeros afetos pela lenda, que venerou sempre a sua casa de partida, icónico na galeria dos One Man Club. Homenagem foi também a carreira do filho, que se fez médio do Ferencváros anos a fio, também internacional húngaro. Hoje, atual treinador da equipa feminina do ‘Fradi’, Florian Albert Jr falou ao JOGO sobre todo este orgulho de ser o descendente de um rei soberano, inebrian te e sedutor, fazendo toda uma Hungria sonhar alto.

“Infelizmente o meu pai terminou cedo por uma grave lesão no joelho e eu só tinha sete anos. Era um tempo de comunismo e a Bola de Ouro não lhe trouxe particular glória [teve propostas de Flamengo e Juventus]. Comecei a jogar futebol no Ferencváros e até aos 15 anos não me apercebi desse peso. Comecei a ser sempre comparado, mas valeu-me não ter sido avançado, fui médio. Tive dificuldades em me afirmar na equipa principal, ainda com estatuto militar, mas, após ganhar o primeiro campeonato, senti-me mais à vontade e outros troféus vieram. O meu desempenho melhorou de ano para ano”, credita, lendo o seu trajeto de 1986 a 1996.

A inspiração maior esteve sempre presente, até na ética de trabalho. “Não houve dividendos para ele nem para mim dessa Bola de Ouro. Tentei ser modesto como ele foi, pois nunca foi alguém de se vangloriar de ter sido o único húngaro merecedor desse título. Foi algo que esteve em casa como motivo de grande orgulho, pelo que ele foi capaz de fazer pelo seu país, foi notícia mundial, algo admirável para muita gente”, sustenta, expondo que todo o universo do Ferencváros tem Florian Albert “Emperor” na mais alta consideração.

“Todas as suas proezas estão no museu, incluindo a Bola de Ouro. Oferecemo-la ao clube, não foi doada, para que os adeptos e, principalmente, os jovens, se instruam sobre quem ele foi, que se possam inspirar para conquistar algo semelhante. É, seguramente, um dos maiores trunfos do clube, só existe uma no país e teve as cores do Ferencváros associadas”, descreve Florian.

O relato segue embalado por contornos de grandeza e proximidade. “O nome dele está intrinsecamente ligado ao clube, todos sabem que foi um ícone como jogador e dirigente. Há também uma fundação gerida por mim e pelo meu irmão; tentamos ajudar crianças talentosas e carenciadas a tornarem-se bons atletas”, acrescenta, ressaltando o papel altruísta da família, dignificando um nome singular e uma relação indestrutível com o Fradi.

“O clube foi sempre a segunda casa da nossa família. Eu estou ligado ao clube há 51 anos, sou o treinador da equipa feminina e um treinador orgulhoso porque já foram campeãs duas vezes.”

Um grande amigo de Eusébio

Homem de um só clube, nunca descontando o Ferencváros das suas prioridades e lutas, Florian Albert capitalizou algumas histórias. Discreto, primava sim pela humildade e generosidade.

“Há situações várias que se podem contar, mas diria que aprecio especialmente o momento em que a Adidas lhe ofereceu um contrato exclusivo, mas o Estado negou-lhe. Então ele passou a receber chuteiras anualmente da marca, mas pedia tamanhos diferentes para poder distribuir pelos colegas de equipa. Todos lhe perguntavam porque queria tantos tamanhos e ele respondia, em forma de brincadeira, que no inverno fazia frio e precisava de duas ou três meias para não congelar os pés”, lembra, entrando num livro aberto de nostalgia.

E nos arquivos de Albert Jr., a certeza da intimidade do pai com Eusébio. “Tenho de vos dizer uma coisa: um dos melhores amigos estrangeiros do meu pai era Eusébio. Visitaram-se mais que uma vez nos respetivos países depois de se aposentarem. O respeito veio, sobretudo, do grande confronto entre Portugal e Hungria no Mundial de 1966”, explica.

Sobre o jogo desta noite, o segundo de uma equipa portuguesa num recinto de um clube tão emblemático, há também apontamentos refrescantes de quem foi rival do FC Porto em 1994 na Taça das Taças.

“Espero um duelo com variações de comando e emocionante, com muitos golos que façam entreter o público. Lembrando 1994, ainda continuo zangado com o Lipcsei. Deixou-me sozinho no meio-campo, quando se transferiu logo a seguir para o FC Porto. Ficamos grandes amigos, foi um grande companheiro, dos melhores com quem joguei. Sabíamos exatamente o que cada um pensava. Mas fiquei muito feliz por ele ter guiado a sua carreira a um clube tão prestigiado de Portugal”, vinca.

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