Johan Cruyff Partiu há dez anos o expoente máximo do “futebol total”
Johan Cruyff, o “holandês voador”, deixou um legado impossível de apagar.
Na foto, uma imagem captada na estreia da seleção holandesa no Mundial de 1974, frente ao Uruguai
MEMÓRIA: JOHAN CRUYFF, O GÉNIO QUE REINVENTOU O FUTEBOL
22 Mar 2026 - Notícias Magazine
Ana Tulha POR
Estrela maior do Ajax, do Barcelona e da seleção holandesa, é tido como o inventor do futebol moderno. Nunca abdicou de dar espetáculo, nem como jogador, nem como treinador.
Quando, há dez anos, foi conhecida a morte de Johan Cruyff, o desportivo espanhol “Marca”, insuspeito de dedicar grandes odes a figuras do universo catalão, eternizou-o como “o génio que reinventou o futebol”. Josep Guardiola, que brilhou no Barcelona liderado por Cruyff e é hoje treinador do Manchester City, considerou-o a “personagem mais importante da história do futebol”. Joan Laporta, histórico presidente do Barça, também não fez a coisa por menos. “Como jogador, transformou o futebol numa arte”, considerou. Três epítetos que sintetizam o legado imenso de um verdadeiro artista da bola, tanto enquanto futebolista, como enquanto treinador. Cruyff, que tantos incluem no curto leque dos melhores de sempre, ao lado de Maradona, Pelé ou Di Stéfano, partiu há dez anos, mas a sua marca continua a bailar livre nos principais palcos do futebol mundial.
Cruyff nasceu em Amesterdão, em 1947, porta com porta com o De Meer, icónico estádio do Ajax (entretanto demolido), o que lhe adensa a aura de predestinado. Estreou-se no clube aos dez anos, primeiro no basebol, só depois no futebol. Aos 12 anos, perdeu o pai, vítima de ataque cardíaco, e a mãe viu-se obrigada a ir trabalhar na limpeza dos balneários, longe de saber que, naquele mesmo estádio, o filho ascenderia a deus. Johan estreou-se na equipa principal aos 17 anos, num jogo de fraca memória para o clube (derrota com o Groningen, por 3-1), mas de belas recordações para o craque, que, gaiato entre gigantes, apontou o único golo do Ajax. Era o início de uma história digna dos mais criativos contos de fadas.
Com o “holandês voador” como figura de proa, o Ajax somou seis títulos de campeão holandês e venceu por três vezes a Taça dos Campeões Europeus (a velhinha versão da atual Liga dos Campeões). Tudo isto à boleia do famoso “futebol total” – uma revolução tática posta em prática pelo treinador Rinus Michels e exemplarmente interpretada por Cruyff, que preconizava uma troca constante de posições e a ideia de que qualquer jogador pode atacar e defender. Após quase dez épocas ao serviço do Ajax, o brilhante médio mudou-se para Barcelona. Ganhou apenas dois títulos – um campeonato (que pôs cobro a um domínio de 14 anos por parte do Real Madrid) e uma Taça do Rei –, mas não tardou a conquistar o coração dos adeptos catalães.
Seguiu-se uma incursão pelos EUA, e uma outra pelo segundo escalão do campeonato espanhol, antes de regressar aos Países Baixos, em grande estilo – esteve mais duas épocas no Ajax, e uma outra no rival Feyenoord, em todas elas foi campeão. Ficou apenas a faltar-lhe um título ao serviço da seleção holandesa, a pujante “Laranja Mecânica”. Em 1974, “El Flaco” ainda levou a equipa à final do Mundial de 1974, no culminar de uma caminhada auspiciosa, mas o sonho esbarrou na Alemanha de Franz Beckenbauer.
Se como jogador se notabilizou pelo sucesso e a nota artística, a lógica manteve-se como treinador, recusando abdicar do compromisso de brindar os adeptos com um espetáculo apetecível. “Ter qualidade sem resultados é inútil, ter resultados sem qualidade é um tédio”, dizia. Pelo Ajax, conquistou duas Taças da Holanda e uma Taça das Taças. Mas foi em Barcelona que viveu o período mais fulgurante da vida de treinador, tendo sido o ideólogo da famosa “Dream Team” que juntou Koeman, Romário, Guardiola, entre outros, e que valeu ao Barça quatro campeonatos consecutivos e uma inédita Taça dos Campeões Europeus.
O percurso nos bancos de suplentes foi, contudo, curto. Aos 48 anos, desgastado por choques violentos com as direções dos clubes e por um estado de saúde débil (fumador compulsivo, teve um ataque cardíaco em 1991), abdicou de ser treinador principal de forma regular. Mas, de alguma forma, nunca deixou o futebol. Que o diga Guardiola: “Foi a maior influência, mais do que qualquer outro. Cruyff construiu a catedral, o nosso trabalho é cuidar dela.”
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