Adeus ao Mão Santa


JONATHAN BACHMAN/GETTY IMAGES / AFP

Eterno ‘Mão Santa’ deixa títulos, marcas históricas e devoção ao Brasil

Lenda do basquete, Oscar Schmidt, o maior jogador brasileiro de todos os tempos, morreu aos 68 anos, depois de lutar contra um câncer.

Astro do esporte brasileiro lutou por 15 anos contra câncer no cérebro e sofreu parada cardiorrespiratória Lenda do basquete mundial, atleta bateu diversos recordes em sua carreira e também defendeu como poucos a seleção brasileira

“Não me arrependo de nada. 
Para mim, a seleção era a coisa mais importante 
que havia na minha vida. 
Por isso que falei não para a NBA. 
O que mais queria ver era os brasileiros comemorando”
   - Oscar Schmidt, Sobre ter recusado convite para jogar nos EUA

18 apr 2026 - O Estado de S. Paulo.
RICARDO MAGATTI

O Brasil perdeu um de seus mais importantes atletas, que elevou o basquete brasileiro a outro patamar. Oscar Schmidt morreu ontem, aos 68 anos. O Mão Santa estava internado no hospital Municipal Santa Ana, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. A morte foi atribuída a uma parada cardiorrespiratória, segundo a prefeitura de Santana de Parnaíba. O ídolo passou mal em sua casa, em Alphaville, e foi encaminhado ao hospital. Segundo comunicado da prefeitura, Oscar chegou à unidade hospitalar já sem vida. Ele deixa a mulher, Maria Cristina, e os filhos Felipe e Stephanie. O velório será restrito aos parentes e amigos, “em respeito ao desejo da família por um momento íntimo de recolhimento”.

O apresentador Tadeu Schmidt homenageou o irmão no Instagram. “Meu maior ídolo! Minha maior referência! Maior exemplo de dedicação e amor à profissão! Que história incrível você escreveu, meu irmão!”, disse Tadeu, que celebrou o irmão também na abertura do BBB, que apresenta na Globo e fez questão de não se ausentar, lembrando que Oscar chegou a jogar com a mão quebrada. “Ia ficar muito bravo comigo se eu não viesse trabalhar”, declarou, tentando segurar as lágrimas.

O Mão Santa passou 15 anos lutando contra um câncer no cérebro, diagnosticado em 2011. Ele foi submetido a duas cirurgias para retirada de tumores e várias sessões de quimioterapia. Em 2022, afirmou estar curado. “Venci essa batalha.”

REVERÊNCIA. Sua morte foi lembrada com reverência em países como Itália, Argentina e EUA. “Oscar Schmidt, Hall da Fama Brasileiro, morre aos 68 anos”, disse o Washington Post, lembrando do lugar de Oscar na história. O argentino Clarín o tratou como “lenda do basquete mundial”, e o italiano Gazzetta dello Sport destacou sua história na Itália, onde jogou por Juvecaserta e Pavia. “Adeus a Oscar, lenda do basquete. Morre aos 68 anos o Mão Santa, que fez grande o Caserta”, escreveu o jornal.

Hortênsia, lenda do basquete feminino, campeã mundial pelo Brasil em 1994, expressou seu carinho pelo Mão Santa em ao programa Tá na Área, do Sportv. “Quando recebi a notícia, veio como se fosse uma bomba na minha cabeça. A gente tem aquela imagem de que o ídolo é eterno, e ele não é. O Oscar... Meu Deus. Eu gosto de lembrar de coisas boas dele”, disse a ex-jogadora e amiga do Mão Santa.

Oscar era viciado em bombons de chocolate e colecionava selos, segundo contou ao Estadão. Pescar estava entre seus hobbies preferidos e seu maior ídolo era Pélé. Mas também adorava Ayrton Senna e manteve o hábito de “falar com Deus”, como fazia o piloto, enquanto jogava. “Pensei ‘eu também falei com Deus’. A concentração é o que há de comum entre nós. Para falar com Deus tem de ser muito concentrado, porque não é qualquer papinho. Por isso, sei que falei com Deus. Eu fazia meus treinamentos concentrado todos os dias da minha carreira e parei quando fui para a Itália. Aí resolvi parar de falar com Deus.”

CARREIRA. Potiguar de Natal, Oscar Daniel Bezerra Schmidt nasceu em 16 de fevereiro de 1958. Seu pai era militar e o criou em um ambiente no qual o esporte era prioridade. Sua primeira paixão foi o futebol. Mas levava jeito mesmo para o basquete, esporte que conheceu em Brasília. Começou a treinar no Clube Unidade de Vizinhança.

Aos 16 anos, mudou-se para São Paulo para jogar nas categorias de base do Palmeiras. O talento precoce o fez pular etapas. Foi convocado para a seleção juvenil, eleito o melhor pivô do Sul-Americano de 1977 e então chegou à seleção principal. No Sírio, que defendeu a convite do técnico Cláudio Mortari, chegou ao auge. Em 1979, foi campeão do Mundial, em uma campanha histórica que o fez ser conhecido internacionalmente.

Em 1980, disputou sua primeira Olimpíada, em Moscou – o Brasil terminou em quinto.

Depois, viriam mais quatro edições: Los Angeles-1984, Seul1988, Barcelona-1992 e Atlanta1996. É o maior cestinha da história dos Jogos ( mais informações nesta página).

Seu grande momento com a seleção foi a medalha de ouro no Pan-Americano de Indianápolis-1987, em uma decisão histórica contra o time dos Estados Unidos, que contava com jogadores da NBA, como o icônico David Robinson, mas foi derrotado por 120 a 115 pelo Brasil. “As performances de Oscar ao longo dos anos foram lendárias. Ele estava à frente de seu tempo e você sempre gosta de ver caras que estão fora do lugar, que são parte do futuro”, disse Robinson, bicampeão da NBA pelo San Antonio Spurs (1999 e 2003), ao SporTV, em 2017.

O ala ganhou ainda os sulamericanos de 1977, 1983 e 1985, além de bronzes no Mundial das Filipinas-1978, no Pan-Americano de San Juan-1979 e na Copa América do México-1989.

AMOR AO BRASIL. “Não me arrependo de nada”, afirmou ao Estadão em 2024, sobre ter dito não a uma equipe da NBA, decisão tomada porque ele não poderia mais atuar pelo Brasil ( mais informações na página ao lado). A decisão fez não apenas ele seguir na seleção brasileira. Fez dele o maior de sua história. Embora lhe faltem conquistas alcançadas por outras gerações, como os dois Mundiais de Wlamir Marques, em 1959 e 1963, o ala-pivô de 2,04 metros de altura tem números incontestáveis, sendo até hoje o maior pontuador da seleção brasileira, com 7.693 pontos.

Além de defender Palmeiras e Sírio, entre outros clubes, o Mão Santa jogou ainda por Corinthians e Flamengo, onde encerrou a carreira em 2003, aos 45 anos. Antes, foram 11 temporadas na Itália. Jogou também no Valladolid, da Espanha.

POLÍTICA. Em 1998, Oscar concorreu ao senado por São Paulo na chapa do Paulo Maluf e foi derrotado por Eduardo Suplicy. “Ainda bem que não fui eleito”, declarou anos depois. “Eu queria ser presidente do Brasil, esse era meu objetivo. E, de senador pra presidente é um pulo, né. Faz sua candidatura rapidinho. Mas não gostei de muita coisa e vi que não era o meu mundo”, justificou. Seu mundo era o basquete, e gravou seu nome nele. 

***

Ídolo de Kobe, disse não à NBA, mas está no Hall da Fama

“Cresci na Itália, assistindo aos jogos de Oscar, 
e ele se tornou um ídolo. 
Conversei com ele durante a Olimpíada. 
Realmente gostava de vê-lo jogar quando era criança”
   - Kobe Bryant, lenda dos Lakers na NBA, 
     morto em 2020, nos Jogos de Pequim-2008, 
     quando esteve com Oscar

“Lembram quando o Brasil venceu os EUA no Pan (de 1987) 
e Oscar anotou 46 pontos? 
Inacreditável! Nos tornamos amigos”
   - Larry Bird, lenda dos Celtics sobre vitória 
     nos Jogos PanAmericano de Indianápolis

18 Apr 2026 - O Estado de S. Paulo.
GUILHERME SANTOS e LEONARDO CATTO RUBENS

Oscar Schmidt se tornou uma lenda mundial do basquete. Seus feitos se espalharam e ele ganhou fama nos Estados Unidos, onde é disputada a NBA, a maior liga de basquete do mundo. Por vezes, lendas americanas ressaltaram o legado do Mão Santa para o esporte.

Ídolo do Los Angeles Lakers e campeão com a franquia por cinco vezes, Kobe Bryant, morto em 2020 em acidente de helicóptero nos EUA, era fã declarado de Oscar. “Cresci na Itália, assistindo aos jogos de Oscar Schmidt, e ele se tornou um ídolo. Não era tão conhecido nos Estados Unidos, mas era um jogador excelente. Conversei com ele durante a Olimpíada. Realmente gostava de vê-lo jogar quando era criança”, disse Kobe, em 2013, antes do AllStar Game em Houston. O pai do astro da NBA, Joe Bryant, também jogou na Liga Italiana de Basquete, entre 1984 e 1991, período em que atuou contra Oscar. “Sempre senti muito orgulho de suas palavras ( de Kobe), do seu jeito de falar de mim. Foi muito bom ser, eu me considerava, amigo do Kobe”, disse em 2020, ao saber da morte do americano.

Um dos jogadores mais dominantes da história da NBA, Shaquille O’Neal, dono de quatro títulos na liga, também já expressou sua admiração. “Se eu fosse bom em lances livres, seria Oscar Schmidt.”

Outra lenda dos Lakers e um dos maiores da história da NBA, Magic Johnson declarou que virou amigo de Oscar após a final do Pan-Americano de 1987, em Indianápolis, nos EUA. “Lembram quando o Brasil venceu os EUA no Pan e Oscar anotou 46 pontos? Inacreditável! Nos tornamos amigos”, declarou Magic.

NÃO À NBA. Chamado para jogar no New Jersey Nets (hoje Brooklyn Nets) em 1984, Mão Santa rejeitou a NBA. Na época, quem disputava a liga americana não atuava pelas seleções nacionais. Em entrevista ao Estadão em 2024, Oscar relembrou a decisão. “Para mim, a seleção era a coisa mais importante que havia na minha vida. Por isso que falei não para a NBA. ( Quando ganhei o ouro no Pan de 1987 em Indianápolis) o que mais queria ver era os brasileiros comemorando. Minha família torceu muito por mim e nunca falou onde queria que eu jogasse”, declarou.

Na época do convite, ele estava no basquete italiano. Mas atraiu holofotes do basquete mundial ainda antes, quando, pelo Sírio, de São Paulo, foi campeão do Mundial Interclubes de 1979.

Em 2013, Oscar foi eternizado no Hall da Fama do basquete, em Springfield, em Massachusetts, nos EUA, mesmo sem ter jogado uma partida na NBA.

Já em 2017, ele foi homenageado pela liga americana quando apresentou melhora no tratamento do câncer. O exjogador, na época com 59 anos, foi convidado para o Jogo das Celebridades, com personalidades, músicos, artistas e ex-jogadores, no All-Star Game. Ele tentou dois arremessos e acertou os dois, fechando com 100% seu jogo na NBA. 

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Oscar só perde para LeBron em pontos e mantém recordes olímpicos

“Não dei a menor bola (para a perda do recorde). 
Recorde é feito para ser batido. Alguém vai chegar e passar”
   - Oscar Schmidt, sobre LeBron ter ultrapassado 
     sua marca em pontos na história

18 Apr 2026 - O Estado de S. Paulo.
BRUNO ACCORSI

A importância de Oscar Schmidt vai muito além dos números, mas as marcas atingidas pelo eterno camisa 14 do Brasil ajudam a compreender a dimensão de sua figura para o basquete mundial. Até abril de 2024, o “Mão Santa” era o maior cestinha da história da modalidade, com 49.737 pontos anotados, feito superado apenas por LeBron James. “Eu não dei a menor bola, porque recorde é feito para ser batido. Se eu tenho um recorde, cuidado. Alguém vai chegar aí e passar”, disse Oscar em entrevista ao Estadão em 2024, poucos dias após ser ultrapassado pela lenda americana da NBA, com história escrita e títulos por Cleveland Cavaliers, Miami Heat e Los Angeles Lakers, onde ainda joga, aos 41 anos. “Não dei a menor bola, porque ele é um grande jogador. Ele me passou, mas sempre me perguntaram: ‘E o LeBron?’. ‘E o LeBron o quê? Quer saber se ele vai me passar? Claro que vai’.”

Líder da inesquecível conquista dos Jogos Pan-Americanos de 1987 sobre os Estados Unidos, Oscar nunca conquistou uma medalha olímpica – o basquete masculino brasileiro tem bronzes conquistados em 1948, 1960 e 1964. Ainda assim, marcou o nome na história da Olimpíada e morreu ainda de tentor de recordes relevantes.

O brasileiro é o maior cestinha da história olímpica, com 1.093 pontos em cinco participações. A quantidade de edições que disputou também é um feito raro no basquete, que ele compartilha com o porto-riquenho Teófilo Cruz e o australiano Andrew Gaze.

Em Seul-1988, Oscar teve uma das maiores atuações da carreira ao marcar 55 pontos contra a Espanha, ainda o maior número anotado em um único jogo em uma Olimpíada. A maior média de pontos por partida em uma edição também é dele, na Coreia do Sul: 42,3. Naquele ano, a lenda brasileira também foi cestinha da competição, feito que repetiu de forma consecutiva em Barcelona-1992 e Atlanta-1996.

Quando o assunto é seleção brasileira, o ala-pivô potiguar também tem números incontestáveis. O principal deles é de ser o maior cestinha do Brasil, com 7.693 pontos.

Na Itália, onde defendeu as equipes do Juvecaserta e do Pavia, foi cestinha em sete das 11 temporadas que disputou, outro recorde, além de ter se tornado o segundo maior pontuador da história da Liga Italiana de Basquete com 13.957, contra 14.397 pontos de Antonello Riva.

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