MORRE OSCAR SCHMIDT, LENDA DO BASQUETE BRASILEIRO
Mão Santa, ou ‘Mão Treinada’, como ele dizia, foi um dos grandes pontuadores da história; atuou em cinco edições de Olimpíadas e entrou para o Hall da Fama do esporte, nos EUA
Apelidado de Mão Santa, ex-jogador foi um dos maiores cestinhas do mundo, acumulou recordes, esteve em cinco Olimpíadas e comandou o Brasil na vitória sobre os EUA no Pan-americano de 1987
18 apr 2026 - Folha de S.Paulo
Estevão Bertoni
“Mão Santa é o caramba!”, protestava Oscar Schmidt sempre que questionado sobre seu apelido. “É Mão Treinada! Acho que ninguém treinou tanto quanto eu treinei.” Um dos grandes cestinhas da história, com 49.737 pontos, Oscar foi obstinado pelo esporte desde que seu tio Alonso o convenceu, aos 13, a jogar. Tão persistente em quadra que bateu recorde atrás de recorde e fez de seu nome um dos maiores do basquete brasileiro.
Ele morreu nesta sexta-feira (17), aos 68 anos, em São Paulo. Após passar mal, foi levado ao Hospital e Maternidade Municipal Santa Ana (HMSA), em Santana de Parnaíba (SP).
Oscar praticava mais de 500 arremessos após os treinos, quando os colegas já tinham ido embora. “Só saía da quadra após acertar 20 cestas seguidas. Meus números e minha taxa de acerto foram fruto disso”, contava.
Nem quando ficou 25 dias com a mão engessada ele parou de treinar. Em 1986, quando o filho, Felipe, estava para nascer, deixou a mulher, Cristina, no hospital, e voltou ao treino. O parto demoraria para acontecer, e ele tinha uma semifinal no dia seguinte.
Em casa, era Cristina quem lhe servia de gandula.
Como resultado de tanta dedicação, alcançou números expressivos. Chegou a ostentar o título de maior cestinha da história antes de ser ultrapassado por Lebron James, em 2024.
Em 1997, pelo Bandeirantes, fez 74 pontos contra o Corinthians, recorde em uma partida no Brasil. A torcida alvinegra já conhecia bem seu talento. No ano anterior, ele havia liderado o time da zona leste paulistana rumo ao título brasileiro.
Oscar apontava que seu aproveitamento era fruto do esforço, mas nem por isso brincava com a sorte: só entrava em quadra com o pé direito e trocava de tênis apenas após uma derrota. Antes dos jogos, costumava rezar.
De tanto treinar, especializou-se em bolas de três. Elas foram determinantes na vitória do Brasil no Pan-americano de 1987, em Indianápolis, nos EUA, marcante conquista do basquete brasileiro.
Naquela partida, os americanos foram melhores nos rebotes, nos lances livres e nas cestas de dois pontos. Quando o primeiro tempo acabou, a diferença era de 14 pontos para os donos da casa. Até que, na segunda etapa, a mão treinada de Oscar começou a funcionar: foram seis bolas convertidas da linha de três pontos.
“Oscar ganhou o jogo”, resumiria o treinador dos EUA, Denny Crum. Com 46 pontos, o camisa 14 foi cestinha da final, na qual a seleção bateu os anfitriões por 120 a 115. Até então, ninguém havia vencido os EUA nem feito sobre eles mais de cem pontos em território americano.
Na seleção, Oscar ganhou também três títulos sul-americanos (1977, 1983 e 1985) e participou da campanha da medalha de bronze no Mundial de 1978, nas Filipinas.
Seu talento foi reconhecido no Hall da Fama da Fiba (Federação Internacional de Basquetebol), em 2010. Em 2013, entrou para o mais prestigiado hall, o de Springfield, nos EUA, onde nasceu o esporte da bola laranja. Quem o apadrinhou foi o craque Larry Bird.
“Acho que agora paro, né?”, disse o potiguar. “Este é o maior prêmio com que você pode sonhar, entrar no hall da fama do seu esporte. Tudo o que eu ganhar agora vai ser menor do que hoje.”
Mais velho de três irmãos, Oscar nasceu em Natal (RN), filho de um paulista farmacêutico da Marinha e de mãe potiguar que jogou vôlei na juventude. Até os 12 anos, nadava e competia.
Mas, aos 13, já com 1,90 m de altura (chegaria a 2,04 m), foi aconselhado pelo tio a procurar, em Brasília, para onde se mudara com a família, o clube Unidade Vizinhança, para jogar basquete. Destacou-se na equipe da cidade e, aos 16 anos, partiu rumo a São Paulo para treinar no time infantojuvenil do Palmeiras. Três anos depois, aos 19, estreou na seleção principal do Brasil.
Em 1978, transferiu-se para o Sírio, time pelo qual conquistou, no ano seguinte, ao lado de Marquinhos e Marcel, um de seus títulos mais marcantes: o Mundial de Clubes, contra o Bosne (Iugoslávia). A dois segundos do final, converteu dois lances livres e empatou a partida, levando-a para a prorrogação. Com a vitória à vista mesmo antes de o cronômetro zerar, já não conseguia segurar as lágrimas —muito emotivo, ganharia dos amigos o apelido de Bebê Chorão. A equipe paulista venceu por 100 a 98.
Oscar jogou mais três anos no Brasil. Em 1982, desistiu da faculdade de administração de empresas, no último ano, e se mudou para a Itália. Ele passou a maior parte da carreira na Europa.
Na Itália, ganhou a admiração de um menino chamado Kobe Bryant. Aquele que seria um dos gigantes da história do basquete passou parte da infância no país, onde seu pai, Joe “Jellybean” Bryant, jogava. “Ele jogava contra o meu pai, e era demais. Eu nem o conhecia por Oscar, sempre o chamei de La Bomba”, disse Kobe, em visita ao Brasil, em 2013.
Embora tenha feito cinco jogos amistosos pelo New Jersey Nets, em 1984, após os Jogos de Los Angeles, não atuou pela NBA. “Lá, você é uma simples mercadoria. A frieza é assustadora. A cobrança é incrível. Não me senti nada bem. O basquete italiano é tão emocionante quanto o profissional norte-americano”, disse à Folha, em 1987.
Mas havia outro motivo para a rejeição aos EUA: a seleção. Até 1989, jogadores da NBA não podiam atuar pelas equipes nacionais, formadas por atletas “amadores”. E Oscar queria defender o Brasil.
Na Itália, onde ficou por 11 anos, tirou o time do Caserta da segunda divisão e, em seu terceiro ano no país, foi escolhido o melhor jogador estrangeiro. Mas, de título expressivo mesmo, só uma Copa Itália, em 1988.
Disputou os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, sua quinta e última participação.
Ao voltar ao Brasil após 13 anos, Oscar passou a dividir as quadras com outras atividades: foi dirigente do Bandeirantes (em que jogava) e, em 1997, secretário de Esportes de São Paulo, na gestão do prefeito Celso Pitta.
Seu habitat era mesmo a quadra, onde as coisas continuavam bem para ele. Foi o primeiro a superar mil pontos em um campeonato nacional e conquistou um paulista depois de 19 anos.
Em 2002, realizou o sonho de jogar profissionalmente com o filho, Felipe, pelo Flamengo, o que desejava fazer antes de parar.
Seu último jogo ficou para maio de 2003. A despedida de Oscar foi comumaderrotadoflamengopara o Universo Minas, por 101 a 89.
A partir de 2011, seu adversário passou a ser um câncer no cérebro, que ele descobriu após um desmaio em uma sauna. Retirou um tumor de 7,5 cm da cabeça.
Em entrevista, admitiu ter medo de morrer. “Mas qual o problema nisso? Vou me abalar? Minha vida foi muito bonita e extraordinária. Maior do que pensei que poderia ser”, afirmou o jogador. Oscar deixa a mulher, Cristina, e os filhos Felipe e Stephanie.
OScar Schmidt comemora a medalha de ouro no Pan-Americano 1987,
conquistado sobre a seleção dos EUA, em Indianápolis. 23.ago.87/Reuters
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As marcas e os recordes de Oscar
ESTATÍSTICAS 49.737 pontos em 1.612 jogos
7.693 pontos pela seleção, em 326 jogos
13 idade com que começou a jogar basquete
45 idade com que se aposentou, em 2003
RECORDES 5 participações em Olimpíadas
3 vezes cestinha dos Jogos Olímpicos
• Seul (1988) 338 pontos
• Barcelona (1992) 198 pontos
• Atlanta (1996) 219 pontos
1.093 pontos em Olimpíadas, o maior pontuador em Jogos
55 pontos contra a Espanha, em 1988, maior pontuação de um jogador em uma partida de Olimpíadas
52 pontos contra a Austrália, em 1990, maior pontuação de um jogador em uma partida de Mundiais
53 pontos contra o México, em 1987, maior pontuação de um jogador em uma partida de Pan-americano
TÍTULOS
• 49 títulos em 69 finais disputadas pela seleção
• 3 Sul-americanos (1977, 1983 e 1985)
• 2 Copas América (1984 e 1988)
• 1 Pan-americano (1987)
• 3 Campeonatos Brasileiros (1977, 1979 e 1996)
• 4 Campeonatos Paulistas (1977, 1979, 1982 e 1998)
• 1 Campeonato Sul-americano (1979)
• 1 Mundial Interclubes (1979)
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Oscar em ação com a camisa do Mackenzie/microcamp,
de Barueri, no Paulista de 1998
Magic e Jordan deveriam agradecer a Oscar
Ícone do basquete mundial reescreveu a história do esporte na final do Panamericano de 1987; e se ele tivesse dito sim para a NBA e não para a seleção?
18 apr 2026 - Folha de S.Paulo
Sandro Macedo
Desde o início dos anos 1980, quando a NBA engatou uma quinta marcha na profissionalização e se transformou em uma das principais ligas (de qualquer esporte) do mundo, dizem que os melhores jogadores de basquete do planeta passaram por lá. Faltou um: Oscar Schmidt (1958-2026).Evelson de Freitas - 15.dez.98/folhapress3 3 Oscar em ação com a camisa do Mackenzie/microcamp, de Barueri, no Paulista de 1998
Por amor à seleção brasileira, Oscar recusou um convite em 1984 para defender o New Jersey Nets —na época, atletas profissionais não podiam atuar pela seleção, regra que caiu nos Jogos Olímpicos de 1992, ano do Dream Team de Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird, e quando o brasileiro já tinha 34 anos.
Se em 1984 os americanos — criadores do esporte— já conheciam o talento extraclasse do jovem brasileiro, este humilde escriba descobriu um pouco depois, em 1987, ano do Pan-americano de Indianápolis.
Na final, o Brasil enfrentou os invencíveis universitários americanos. Sim, só os estudantes não profissionais dos EUA eram suficientes para levar o ouro em praticamente qualquer competição
Se fosse preciso apenas um jogo para resumir todas as características de Oscar como atleta, aquela final era o jogo. Antes do fim do primeiro tempo, os americanos, com David Robinson (futuro campeão com o San Antonio Spurs) venciam com certa tranquilidade. Oscar começou a fazer seguidas cestas de três pontos, sua principal marca. Em alguns casos, esperava o contato e tinha ainda um lance de bonificação —Stephen Curry e James Harden morreriam de inveja.
O Brasil ultrapassou os americanos com uma cesta de três de Oscar, marcando 83 a 80. O placar final foi de 120 a 115, 46 pontos de Oscar —e outros 31 de Marcel, um coadjuvante à altura do protagonista. Porém, não eram só os pontos, o comportamento do Mão Santa era igualmente marcante. A cada cesta no segundo tempo ele pulava, gritava, socava o ar, como um jogador de futebol faz em um gol. No fim, quando a vitória parecia certa, Oscar deve ter jogado algum tempo chorando… e fazendo pontos.
Na época, aquela vitória era classificada por muitos como o maior triunfo brasileiro desde o tricampeonato da Copa de 1970.
Mas, para ver Oscar em ação, era só com a seleção. O atleta passou os melhores anos de sua carreira, entre 1982 e 1997, atuando na Europa. Quando voltou ao Brasil, foi jogar para as massas. Ganhou títulos no Corinthians e no Flamengo, equipes de torcidas que podiam comemorar suas cestas à altura, como gols.
Mas aquela final de 1987 reescreveu a história do esporte. Depois da final perdida —somada ao bronze nos Jogos de Seul-1988—, as regras foram alteradas para permitir a atuação dos profissionais. Bird, Magic e Jordan deveriam agradecer ao Oscar.
Talvez tenham agradecido. Em Barcelona-1992, o Dream Team atropelou todos os oponentes, incluindo o Brasil, com o veterano Oscar, por inapeláveis 127 a 83. Ao fim da partida, os americanos, tietados em todos os confrontos, conversaram com Oscar como um igual. Os americanos ficaram com o ouro, mas o cestinha dos Jogos foi o Mão Santa.
Se Oscar tivesse ido para a NBA, é possível que seu nome estivesse agora entre os maiores cestinhas da liga, como Lebron James. E seria certamente reconhecido como um dos maiores do mundo.
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FRASES MARCANTES DE OSCAR
Minha paixão é o basquete e passei minha vida toda jogando. Não tenho frustração. Não tem preço que pague 15 anos de seleção brasileira, como ídolo
O basquete é tão bonito que só pode estar atrás do futebol, insuperável
Em 11 anos que atuei na Itália, recebi 13 faltas técnicas. Aqui [no Brasil], levo uma em quase toda partida. Infelizmente, sou mais respeitado lá fora
Vou morrer pensando nas emoções que eu vivi com meus companheiros da medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, do Mackenzie e do Flamengo, e da minha despedida da seleção nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e de jogar ao lado do meu filho
A política, de fato, não era a minha vida. Tudo me incomodava. Quando fui candidato ao Senado, foi pior. Ganhei inimigos e ainda hoje recebo emails com críticas
Mão Santa é o caramba! É Mão Treinada! Acho que ninguém treinou tanto quanto treinei. Você nunca pode achar que foi o suficiente. Se parar, regride
Eu estou vivendo, e muito bem. Não é um tumorzinho que vai me derrubar
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Clubes, entidades e imprensa mundial relembram trajetória de Oscar no basquete
18 Apr 2026 - Folha de S.Paulo
Luciano Trindade
A morte de Oscar Schmidt repercutiu entre entidades esportivas e personalidades no Brasil e entre a imprensa internacional.
No país, Hortência, rainha do basquete, afirmou à Folha que o esporte brasileiro perde uma voz obstinada, símbolo de uma garra que parecia imune ao tempo. A atleta atribuiu ao amigo características como patriota, e disse que o retrato que ficará de Oscar é o de quem transformou obsessão em método e disciplina.
“Quando a gente tem um ídolo, acha que ele é eterno”, disse. “E não é. É isso que choca.”
O presidente Lula (PT) afirmou que Oscar uniu os brasileiros. “Ao longo de décadas, uniu o país em torno das quadras, com arremessos inesquecíveis e liderança indiscutível. Disputou cinco Olimpíadas e se tornou o maior pontuador dos Jogos”, afirmou.
O presidente em exercício Geraldo Alckmin (PSB) decretou luto oficial de três dias.
Em nota, o presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marco Antonio La Porta, disse que a história do atleta jamais será esquecida. “Levou consigo não apenas o talento, mas a inspiração para todos que acreditam no poder transformador do esporte e a bandeira brasileira no coração”, disse.
O Corinthians, clube pelo qual Oscar atuou entre 1996 e 1997, destacou a passagem do atleta pela equipe e se solidarizou com a família.
O Palmeiras recordou que Oscar deu os primeiros passos como atleta profissional vestindo a camisa do clube. “A estreia no time adulto do Verdão aconteceu aos 17 anos, em 30 de agosto de 1975, no ginásio do Sírio, onde marcou os primeiros dos 49.973 pontos que anotaria ao longo da carreira.”
Pelo mundo, o jornal americano The Washington Post lembrou que, apesar de nunca ter jogado na NBA, o brasileiro teve uma trajetória de impacto na história do basquete. “Schmidt nunca jogou na NBA, mas é querido no Brasil por priorizar a seleção, disputar cinco Jogos Olímpicos consecutivos e estabelecer marcas de pontuação que permanecem até hoje”, citou a publicação.
O periódico italiano Gazzetta dello Sport lembrou a passagem de Oscar pela Itália, com atuação importantes por clubes como Caserta e Pavia.
A agência italiana ANSA citou que Schmidt era o único brasileiro no Hall da Fama da NBA e relembrou a carreira internacional dele. “Reconhecido pela genialidade e pelo impacto global, foi eleito um dos 100 melhores jogadores de basquete de todos os tempos”, afirmou a reportagem.


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