EULÁLIO NA SENDA DE ALMEIDA
Eulálio agarra a rosa
Português da Figueira espanta no Giro e pode manter liderança uma semana
Aventura de 180 km em fuga e quedas à mistura não valeu o triunfo na quinta etapa, pois Igor Arrieta ofereceu um bis à UAE Emirates, mas rendeu uma liderança sólida, com Jonas Vingegaard a 6m22s.
"Foi um dia louco. Ele caiu, fiquei sozinho,
depois caí eu e acabamos a fazer o sprint mais lento de sempre"
"Tenho uma vantagem interessante.
Mas só vou saber o que é ir de rosa quando a vestir na etapa"
- Afonso Eulálio, Bahrain-Victorious
14 mag 2026 - O Jogo
CARLOS FLÓRIDO
“Não consigo fazer o mesmo do João Almeida. Ele é superforte, só vou tentar fazer o melhor nos próximos dias”, disse Afonso Eulálio em Potenza, onde uma fuga louca debaixo de chuva intensa não lhe rendeu o prémio ambicionado, o triunfo na quinta etapa – Igor Arrieta, espanhol da UAE Emirates, bateu-o numa acidentada fuga a dois –, mas valeu um inesperado jackpot: aos 24 anos, o ciclista da Figueira da Foz tornou-se no terceiro português a vestir a camisola rosa da Volta a Itália e deu uma alegria imensa à Bahrain-Victorious, que perdera o seu líder, Santiago Buitrago, na fatídica segunda etapa. A referência a Almeida não foi um acaso. Em 2020, o caldense também surpreendeu ao vestir de rosa e tornou-se no jovem que mais tempo a envergou, 15 dias.
Simpático e de bom coração, Eulálio é um jovem modesto e incapaz de assumir a ambição por grandes feitos, mas tendo a frieza e qualidade necessárias paraosconseguir.Asuaafirmação na Bahrain, onde chegou depois de andar de amarelo na Volta a Portugal pela equipa do seu coração, o Feirense, tem surpreendido, sendo um sinal de que poderá superar pela positiva a pressão e mediatismo de ser líder, feito que só três portugueses atingiram: ele,Almeida e Acácio da Silva, este durante dois dias, em 1989.
Os grandes testes dos próximos dias serão amanhã, com subida final no Blockhaus (13,6 km a 8,4%), domingo, no Corno alle Scale (10,8 km a 5,8%), e sobretudo na próxima terça-feira,comocontrarrelógioplano de 42 km em Viareggio. Este representa a maior debilidade de um corredor de 62 quilos, pois, a trepar, o figueirense poderá exibir as suas qualidades e aproximar-se do recorde de Almeida, já que tem Arrieta a quase três minutos e a maior ameaça, Jonas Vingegaard, a 6m22s, tal como a maioria dos candidatos ao pódio. Vencer o Giro estará fora do alcance, repetir o quarto posto do colega de Seleção já seria extraordinário.“Vou procurar ser mais consistente”, prometeu.
Da “fuga da fuga” às quedas no molhado
Uma montanha de entrada numa etapa ondulada era um con vite às fugas e Afonso Eulálio achou ser o seu dia, a 182 km de terminarem os 203, juntando-se a Einer Rubio (Movistar) e Thomas Silva (Astana), o uruguaio que perdera a rosa para Giulio Ciccone. Uma sucessão de ataques juntou 13 homens na frente, com as principais equipas representadas, o que abria de vez a janela do êxito. A Lidl-Trek era insuficiente, naquele terreno, para perseguir tanta gente e defender um irritado Ciccone.
Rubio foi durante bastante tempo o rosa virtual, mas a corrida mudou na última escalada. Igor Arrieta fugiu antes de começar a subida, Eulálio aguardou pelos primeiros ataques no restante grupo, para acelerar e se juntar ao espanhol a UAE. Uma breve conversa entre ambos selou o pacto e estava estabelecida a “fuga da fuga”, aquela que dita o vencedor.
“A faltarem 50 km acreditava que ia por tudo, também para ganhar a etapa”, disse Eulálio sobre o que considerou “um dia de loucos, com a primeira subida, chuva, frio, ataques e depois as quedas”. Sim, as quedas! A cerca de 10 km da meta, Arrieta patinou no molhado e foi ao chão. O português ficou com uns 30 segundos de vantagem e o triunfo à vista. No entanto, pouco depois, era Eulálio a escorregar e cair. Os jovens ibéricos juntaram-se de novo, para, já perto do final, o da UAE se enganar no caminho. Desta parecia um triunfo certo, mas não. Arrieta, fazendo das tripas coração, alcançou o português, ultrapassou-o e ganhou! “Sem as quedas, era melhor. Deve ter sido o sprint mais lento de sempre”, desabafou Afonso.
Um líder com uma “vantagem interessante”
“A equipa fez o plano perfeito para eu estar na fuga e lutar pela vitória”, contou Afonso Eulálio, revelando que a Bahrain-Victorious nunca pensou “na camisola rosa; acabou por acontecer”.
“Espero que os portugueses acompanhem e se sintam orgulhosos. Os da minha cidade já me conhecem. Quanto a mim, acho que só quando começar uma etapa vestido de rosa vou perceber o que isto significa”, contou o figueirense, admitindo que tem “uma vantagem interessante” e esperando vestir de rosa “mais dias”. Quantos, dependerá de como reagir ao esforço de ontem, da sua equipa e dos rivais.
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UM SÓ TRIUNFO E NO GP JN
Afonso Eulálio é o 197.º do ranking mundial, tendo muitos lugares de honra e poucos triunfos. A jovem estrela da Volta a Portugal de 2024 – foi segundo na Torre e levou a amarela até à Senhora da Graça, perdendo-a para Artem Nych – só venceu uma etapa do Grande Prémio JN, nesse mesmo ano, numa chegada à Penha, em Guimarães. Antes disso, foi campeão nacional de Sub-23, em 2021.
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ORGULHO NO JOVEM LUSO
“Estamos muito contentes com a rosa e orgulhosos dele”, comentou Franco Pellizotti, diretor desportivo da Bahrain-Victorious no Giro, sobre Afonso Eulálio. O português vestiu tanto a rosa como a branca, de líder da juventude, e até dedicou o pódio a Santiago Buitrago, líder inicial da equipa, mas desistente na segunda etapa. “Isto também é para ele”, disse.
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DOIS TRIUNFOS E FALTA MORGADO
Com a equipa dizimada pela queda do segundo dia – desistiram Adam Yates, Jay Vine e Marc Soler –, a UAE Emirates festejou com um ensanguentado Igor Arrieta o segundo triunfo em etapas, passando a somar 30 esta época, tem o jovem espanhol e o suíço Jan Christen bem colocados na geral e ainda não apostou em Morgado, que é o mais vocacionado para fugas e tem perdido tempo todos os dias.
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Aposta Ganha duas etapas e Caruso renova
“Fiz uma aposta com o Damiano: ele disse-me que, se eu ganhasse duas etapas, renovaria por mais um ano. Pedalava a pensar nisso, que só faltaria mais uma, e afinal fui segundo. Vou tentar trocar o acordo, ele assina se eu ficar uns dias de rosa”, revelou o humorado Eulálio sobre o pacto com o italiano de 38 anos a quem ontem tirou… a liderança da equipa.

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